- Ei, príncipe – foi a primeira coisa que eu disse quando entrei em seu quarto que no momento se encontrava muito escuro. As luzes estavam apagadas e talvez se não fosse pelos baixos – mas ainda audíveis – soluços, não saberia que ele chorava. Ele estava sentado na cama. Os cotovelos nos joelhos e os olhos fitando as mãos já molhadas.

Honestamente, não podia dizer se ele queria que eu estivesse ali, uma vez que não sabia como ele estava reagindo a aquilo tudo. Mas em algum lugar dentro de mim, ouvi claramente que talvez algo pudesse ser feito pra apaziguar a dor que já havia sido sentida por mim anos atrás.

Sentei ao seu lado e acariciei suas costas. Fiquei um pouco receosa e pensei em afastar minhas mãos que faziam um desenho qualquer em seu dorso assim que seu choro se intensificou. Mas ao contrário disso, puxei um de seus braços, para que ele se virasse pra mim e o abracei.

- Ei querido, você pode olhar pra mim? – falei após algum tempo. Ele demorou pra realmente me encarar, e quando o fez, me esforcei pra não chorar. – Fique tranquilo, ta bem? Parece a pior coisa que pode acontecer, mas tudo vai dar certo. Seus pais ainda te amam, e não vão se separar de você. Talvez o rompimento deles os façam mais felizes. E talvez isso venha para o bem! – Pausei, tentando controlar minha voz já chorosa. Mais um soluço vindo dele. – Estou aqui com você, tudo bem? Vamos superar isso juntos.

Então ele me abraçou de novo, levando todo o meu ar embora. Deixei uma única e silenciosa lagrima escorregar pelo rosto e fiquei feliz pela luz ainda se manter apagada. Alguns longos segundos se passaram, e pedi para que ele deitasse na cama de forma que eu pudesse o cobrir. Puxei a cadeira que somente era usada quando o computador era ligado e me sentei. Afagava sua mão quando o vi fechando os olhos depois de um tempo que passou como dias.

Eu não tinha certeza de como ele acordaria, mas esperava que não fosse da mesma forma que havia ido dormir. Durante o tempo que passei ali, ouvia o choro baixo, provavelmente da mãe do meu pequeno. Não sabia ainda o motivo do rompimento, mas pela dor que ela exprimia, já podia imaginar.

Apertei mais uma vez sua mão, dessa vez tentando me acalmar. Dessa vez, me tranquilizando com a certeza de que ele ainda estava ali. Falando mais pra mim do que pro garotinho encolhido na cama, pelo qual eu me encontrava em um estado de amor. “Não. Não vai acontecer com a gente, não precisa se preocupar. Temos um ao outro, agora e para sempre.”

Já passava das 23 horas e eu ainda prestava atenção no jornal. O bloco de economia prendia completamente minha atenção quando ouvi batidas fortes na porta. Londres sempre se mostrou uma cidade realmente segura e tranquila, mas incidentes acontecem em todo lugar. Andei lentamente até a janela a procura de algo, porém, vislumbrei o escuro. O medo que sentia se dissipou muito rápido quando ouvi sua voz. Abri então a porta o mais rápido que pude.

“Está louco? Quer acordar toda a minha família?”

Ele ignorou minhas perguntas e deu dois passos, para frente, derrubando a cabeça o meu ombro. O cheiro de álcool misturado com seu perfume denunciava que ele havia bebido, mesmo sabendo mais do que eu sobre a rigidez das leis por aqui.

Como podia ser tão idiota? Irremediavelmente idiota e lindo.

“Desculpa.” Falou choramingando. Tínhamos tido uma curta e acida discussão, trocamos palavras violentas, apenas para revidar. Eu havia cansado daquilo, então abri a porta, ouvindo-o gritar pra onde eu estava indo, uma vez que não havíamos terminado o assunto em questão, mas eu ignorei.

Parece que alguém não conseguiu controlar o remorso.

Sussurrei um “vem cá”, em português mesmo, ele não entenderia nada que eu falasse naquele estado. Puxei-o para o banheiro, apenas me preocupando em tirar seus tênis, camisa e o celular e chaves que se encontravam no bolso da calça. Coloquei-o sob o chuveiro, o ouvindo resmungar.

“Está muito gelado.”

“Mesmo? Que pena.” Disparei meu sarcasmo, já saindo de lá e procurando as peças de roupa que ele deixara aqui há tempos atrás.

Minutos depois, voltei ao banheiro e o vi se encolhendo de baixo da água fria, não pude esconder minha preocupação. Pedi que desligasse o chuveiro e abri a toalha na minha frente, logo a enrolando em seu corpo enquanto ele tremia um pouco. Sequei parte de seu cabelo e avisei que não demorasse pra se trocar enquanto eu saia de lá. Então me encostei à parede do lado da porta e o esperei. Agora meu menino parecia mais aquecido e sóbrio. Falei para que me acompanhasse e ele segurou minha mão. Não protestei. Puxei o edredom quando já estávamos no quarto e disse para que se deitasse. Mandei uma mensagem para o numero da sua mãe, caso estivesse preocupada, explicando a situação, omitindo apenas o estado que ele havia chego: bêbado. Liguei o abajur e desliguei a luz do quarto.

Já estava alcançando novamente a porta  quando o ouvi falar.

“Fica aqui comigo?” Eu iria negar o pedido, quando ele abriu os braços e continuou sorrindo. “Deita aqui.”

Por favor, esse sorriso não.

Segundo depois já estava aninhada em seu peito, fingindo não querer tanto estar ali.

“Você me perdoa?”

“Tudo bem, não foi incômodo algum cuidar de você.” De fato, sabia pelo o que ele pedia desculpas, mas queria ver até onde ele iria.

“Não falo disso, alias, te agradeço.” Ele pausou para respirar e fitou a janela do quarto. “Não queria ter brigado com você, não vai acontecer de novo. Não quero mesmo te ver decepcionada comigo, me perdoa?” Suas palavras pingavam arrependimento.

“Shhh. Dorme.”

“Não vou conseguir sabendo que ainda está triste pelo o que eu fiz.”

“Está tudo bem, amanhã será outro dia e vamos resolver tudo isso, ok? Agora descanse.”

Ele assentiu, fechando os olhos, assim como fiz segundo depois, me rendendo ao sono.

“Príncipe!” disse sorrindo , encostada no armário ao lado do dele. Estávamos no meio da tarde e a aula já havia terminado. Via-o alcançando as chuteiras e uma pequena mochila que sempre levava para o treino.

“Eaí” ele disse num tom seco, quase rude.

“O que acha da gente sair hoje? É sexta-feira e a cidade está cheia do que fazer.”

“Valeu, mas dispenso por hoje.” Ele fechou o armário e começou a andar sem nem ao menos me olhar.

Chamei-o apenas uma vez e ele virou com a cabeça um pouco inclinada para cima, ainda sem me encarar, parecendo um pouco irritado. Cheguei mais perto e perguntei da forma mais carinhosa que achei.

“Aconteceu alguma coisa?”

“Não.”

“Nada mesmo?”

“Absolutamente nada.”

“Então porque não ganhei nem ao menos um beijo hoje?”

“Manhosa” ele falou baixo encarando o teto por alguns segundo, parecendo falar sozinho, e quando me olhou, o vi se desarmar. “Porque não vai pedir um beijo pra ele? Meu pequeno apontava com os olhos. Quando vi o alvo reprimi a vontade de rir e me fiz de desentendida.

“Como assim? Pedir um beijo para seu melhor amigo?”

“Você entendeu, Gabriela. Claro que entendeu. Acha que não vi vocês durando o treino conversando enquanto ele devia estar no campo ontem? Além do mais, tem passado tanto tempo com ele que nem mais te vejo”

Que doce! Foi tudo que pude pensar.

Coloquei minhas mãos no quadril, o olhando com diversão.

“Como você é bobo…”

“Devo ser mesmo, vendo minha menina andando por ai com outro sem falar nada.” Ele soava realmente indignado.

“Você ao menos me perguntou porque tenho estado tanto com ele?” Meu pequeno apenas negou com a cabeça.

“Estamos no mesmo grupo de estudo, e se você se esqueceu vim de longe e não tenho entendido nada sobre o conteúdo de física.”

“Podia ter pedido a minha ajuda…”

“E você acredita mesmo que conseguiríamos estudar por mais de dez minutos sem nos distrairmos?” Guardei a corrente que fugia da gola de sua camisa, há algum tempo disse-me que tinha ganho de seu avô e nunca a tirava desde sua morte. Agora ele estava mordendo o lábio inferior tentando esconder o sorriso. “Ciumento.”

“Não sou”

“Claro que não.” Deixei toda a ironia sair pela minha voz.

“Não mesmo.”

“Então não se importa de ir tirar mais algumas duvidas e talvez passar mais tempo com ele.”

Ele bufou.

“Tenho ciúmes de você. É isso que queria ouvir?”

Abracei-o pela cintura e fiquei nas pontas dos pés encostando seus lábios no meu. Pensei que ele iria recuar, mas ao contrário, foi bem receptivo segurando meu rosto. O beijo foi curto, mas ainda assim me valeu muito.

“Era exatamente isso que eu queria ouvir” pausei. “E olha em volta, em todos os lugares que eu poderia estar. Mas estou aqui. Com você, não estou? Não podia estar em melhor lugar.” E aquele sorriso apareceu. Ah, aquele sorriso.

“Onde quer que eu te leve essa noite?”

O sinal do final da aula já havia tocado há um pouco mais de 40 minutos quando um dos seus amigos passou pelo corredor do colégio. Por mais que eu sentisse repulsa daquele garoto, reprimi a vontade de perguntar a ele se precisava de ajuda assim que o vi com o nariz e camiseta, ambos ensaguentados e a expressão de dor. Ele havia levado no mínimo um belo soco.

Logo um murmúrio se instalou num pequeno grupo que ainda permanecia na escola. Alguns garotos que chegaram depois, conversavam animadamente sobre uma briga no campo de futebol. No meio daquelas risadas ouvi o nome dele. Alguns olhos me encaravam enquanto eu apressava os passos para onde eu sabia que ele estaria.

No momento que virei até a porta do vestiário, um surto de alivio atravessou meu corpo, que quase nem notei o canto de suas sobrancelhas cortada quando ele sorriu.

- Oi, amor – ele disse já pegando minha mão sem nem ao menos parar de andar. Coloquei-me parada em sua frente o fazendo olhar para mim. Fiquei o encarando, ele tinha uma diversão no rosto com aquele sorriso um pouco infantil.

- Você se machucou… Dói muito? – Pousei meus dedos próximos ao corte e ele fez uma careta. Eu já até sabia a resposta.

- Quase não sinto. – Obviamente mentiu.

- O que houve?

- O treino acabou mais cedo pra mim hoje – deu de ombros. Era nítido que alguma coisa era omitida pelo meu menino. Encarei seus olhos por um longo tempo.

- O que houve? - Voltei a perguntar. Ele demorou alguns segundos até falar algo, parecendo selecionar as palavras que usaria.

- Ouviu o que aquele idiota anda falando sobre você? – Assenti silenciosamente - Achou que isso não chegaria aos meus ouvidos? Porque não me contou? – ele parecia um pouco triste agora soltando todas as perguntas ao mesmo tempo.

- Não queria te preocupar, e além do mais, nã… – fui interrompida.

- Preocupar? Tinha um imbecil falando o que não sabe por ai sobre a minha namorada e não queria me preocupar? Você queria que eu simplesmente admitisse isso? E do que você tanto ri? – Cruzou os braços.

Foi involuntário, eu queria muito o abraçar e continuar rindo,  então o fiz.  Ele demorou pra ceder, mas logo me envolveu nos seus braços e voltou a sorrir. Ele havia entendido o motivo da minha risada. Eu o achava realmente especial tentando me proteger.

- Não tente me esconder mais nada, tudo bem? – Sorri concordando, e tocando seus lábios com os meus rapidamente, para que ele pudesse completar - Eu vou cuidar de você.

- Ei, não quero te ver assim…

Ele forçou o sorriso quando falei, mas era óbvia a tristeza. Nós estávamos no quarto dele, eu sentada na poltrona na frente da cama onde ele estava deitado, olhando para o teto, mexendo na aba do boné. Sentei no canto na cama, ele pareceu nem notar.

                - Você pode me desculpar? – Eu não tinha culpa, mas sentia como se tivesse. Minha voz saiu baixo, porem ele ouviu. Mexeu-se um pouco, parecia um pouco ansioso. - Não fique bravo, nem chateado. Essas são nossos últimos dias, temos que aproveitar, certo? Não prometi voltar? E você não prometeu que me visitaria assim que pudesse? – Eu sorri, tentando de alguma forma reconforta-lo. De fato, eu tentava reprimir o choro, cada vez que ele respirava pesadamente. Deitei ao seu lado e segurei sua mão. – Não quer falar comigo, não é? Quer que eu vá embora?

                Era a primeira vez ali que ele me olhava. Demorou um pouco, mas meu menino resolveu responder.

                - Nós já sabíamos que isso iria acontecer. Você tem que ir embora, mesmo que eu não queira. Vamos resolver isso de alguma forma. Claro, se você ainda quiser ficar comigo… E não faça essa cara, não a quero chorando. Você tem razão, vamos aproveitar esse tempo.

                Ele se levantou, vestiu seu casaco e me ajudou com o meu. Pegou minha mão e logo já estávamos na rua, rindo das pessoas que passavam por nós. Eu sentiria disso. Do jeito que ele arrumava o cabelo quando acordava, ou do sorriso que esboçava antes de dormir. Do sotaque altamente vicioso aos meus ouvidos. Dos olhos muitas vezes perdido. Da tranquilidade, da admiração que sentia com ele e por ele. Da alegria quando junto aos amigos, sem se importa com o resto. Das piadas geralmente bobas. Do calor que emanava do corpo dele. Eu sentiria falta de tudo ali. 

Não havia nada de extremamente romântico ali. Há pouco tínhamos chego do teatro, pedi por dias pra que ele fosse comigo assistir a peça e meu menino finalmente cedeu. No caminho, passamos pela pizzaria. Como alguém podia comer tanto e continuar naquela forma física? Agora já estávamos no chão da sala. Ele com a cabeça sobre minhas pernas, reclamando que havia comido demais. Que novidade. Dei um beijo em sua testa e voltei a afagar seus cabelos enquanto ele prestava atenção na televisão. As sextas quando estávamos em casa, eu o acompanhava assistindo ao esporte. Muitas vezes discutíamos futebol. Como ele era chato, sempre me irritando. Mas queria enfatizar a sensação daquilo. Do sorriso pelo simples gesto das mãos deles acariciando meus joelhos sem nem ao menos prestar atenção. Dele esbravejando de forma tão linda para a ESPN. Das trocas de palavras e beijos durante os intervalos. De como eu passei dias sonhando com isso. Obrigada, destino!

Já passavam das quatro da manhã e ainda não havíamos pego no sono. Estávamos um em frente ao outro, conversando por horas sem a menor pretensão de dormimos. Ouvíamos uma musica pesada vinda da vizinhança e o tique-taque do relógio na mesa de cabeceira. Algumas vezes ficávamos em silencio, mas ainda escutava as milhares de palavras que atravessavam seus olhos.  Queria dizer tudo o que eu pensava sobre ele. Sobre como eu me sentia diante daquele rosto iluminado. Sobre como Deus o amava por ter o feito de forma tão linda. Eu diria e o veria sorrir. Por um momento pensei em falar que estava com frio e queria que ele me aquecesse. Mas me mantive em silêncio. Apenas me aproximei enquanto ele me olhava com curiosidade e seu sorriso aumentava. Seus lábios eram muito frios em contraste com os meus, eu havia gostado. Ele me puxou pela cintura pra mais perto dele, Aquilo se manteve terno, e logo encontrei seu sorriso quando nos soltávamos. Estava tudo claro ali, então nenhuma palavra foi dita. Entrelaçamos nossos dedos e deitamos lado a lado. Mas ele soltava minha mão pra me abraçar e beijar minha testa. Eu o vi dormindo ligeiramente, e não conseguia fazer o mesmo. Queria ter certeza que aquilo era absolutamente real. Que aquele garoto cujo os braços estavam em volta de mim, realmente existia. Era um sonho? Não queria ser acordada agora.

Tive a impressão de ouvir a campainha tocar, mas não me importei. O som estava alto, eu estava dançando, sem enxergar nada e sem a menor preocupação. Mas a musica acabou, e enquanto eu esperava o começo de outra, abri os olhos. É claro que a intenção dele não era me assustar, mas meu coração naquele instante acelerou em suas batidas.

“Você nunca tranca a porta?”

                        Ele tinha o celular e uma caixa de chicletes na mão, e o sorriso dominador nos lábios. Apenas o abracei, sem falar nada. O cheiro que ele exalava era do mais agradável e por um momento, tive a certeza que nunca mais o soltaria.

                        A musica recomeçou, agora mais calma. Ele se mostrou um ótimo dançarino, quem diria? Nenhuma palavra foi dita, e de novo, nada foi visto. Não queria acabar de forma alguma com o silencio, mas o “eu te amo” saiu inconscientemente da minha boca, e provavelmente da mesma forma da boca dele segundos depois.

                        Os lábios dele tocaram os meus. Ele não se incomodou quando joguei seu boné em cima do sofá baguncei seu cabelo. No fundo eu acho que ele gostava. No fundo também achava que ele era meu príncipe e eu queria ser a princesa dele. Achava que pro resto da minha vida enquanto fechasse meus olhos, eu o veria. Achava que mesmo longe, ele estaria perto. Achava que éramos pra sempre.

“I never had the words to say, but now I’m asking you to stay for a little while inside my arms.”

Eu sei que em algum lugar você existe. E eu tenho que te encontrar. E sei que isso pode acontecer qualquer dia.
Simplesmente na esquina...
Eu vou te encontrar algum dia. _____________
I'm gonna find you if I keep living someday...
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Where have you been?
Where have you been all my life?
Looking for you.
All my life, all my life...